Chamava-se Clara. Era a filha mais nova de Vega a estrela mais brilhante da constelação de Lyra. Pequena mas reluzente, a estrelinha parecia saltitar graciosamente perante um universo escuro e inexplorável. Brilhava como um pequeno e raro diamante a enfeitar o dorso de uma delicada princesa. A pequena Clara, sem se dar conta, alumiava com seu brilho inigualável o céu de um pequeno e pobre pastor de ovelhas chamado Davi.
Todas as noites o pequeno Pastor a buscava nos céus, como um namorado apaixonado busca ancioso por sua amada tão querida. Parecia que Clara, se revestia de seu mais valoroso brilho de luz para se encontrar com Davi pelas pradarias verdejantes onde ele pastoreava suas ovelhas. Sim estavam enamorados, ficavam horas a se fitar, como se mais nada houvesse em seu redor.
Admiravam-se... Davi podia sentir Clara vibrar quando lhe contava suas aventuras, ela remetia um brilho diferente para cada sensação... Era um brilho para quando sorria, um brilho para quando estava alegre, um brilho para quando estava triste e um outro para quando estava séria. Se conheciam, se amavam, se respeitavam. E aguardavam anciosos um dia poderem se encontrar.
Davi, perguntava a Clara: Quando, minha pequena, poderei encontrá-la? A pequena Clara, como que querendo o consolar, dizia que ainda demoraria certo tempo.
O pastor cresceu, tornou-se um homem célebre, conquistou novos horizontes, conheceu o mundo a sua volta e quanto mais ele se tornava um homem respeitado pela sociedade, quanto mais ganhava dinheiro e sua fama percorria o mundo...mais seu amor pela pequena Clara ia se tornando uma doce e distante lembrança de seu passado. Tornou-se rico, dono de muitas propriedades, invejado homem de negócios, casou-se, teve filhos, netos, porém sentia que algo de essencial lhe faltava no âmago do seu ser e não conseguia se sentir feliz.
Quando em seu leito de morte, agonizava sozinho e enfermo, porque seus bens já haviam sido repartidos entre os seus entes e já não havia mais quem se preocupasse verdadeiramente com ele, nem esposa, nem filhos, nem amigos... quando ninguém mais havia para lhe falar palavras doces de conforto e alívio nessa hora derradeira da partida, eis que ele olha pela janela do quarto e avista uma pequena estrela quase que sem brilho. Era Clara, agora uma estrela pálida e solitária. Pediu-lhe perdão por tê-la abandonado a uma simples lembrança de seu passado, por tê-la abandonado a própria sorte, enquanto lágrimas desciam por sua face envelhecida pelos anos de lutas e conquistas. Me perdoe minha Clara, nada nesta minha vida teve real valor, nada conseguiu me fazer verdadeiramente feliz, nem riquezas, nem paixões, nada absolutamente nada me completou e inspirou. Porque somente o seu amor era capaz de me fazer verdadeiramente enxergar quem eu sou.
A pálida estrela, como quem retôma o fôlego, vagarosamente foi recobrando seu brilho, só que agora era um brilho diferente, etéreo, sereno e envolvente. Perdoou-lhe com genuína nobreza de alma, provou-lhe que o amor verdadeiro resiste a provas, a distâncias e até mesmo aos efeitos cruéis do tempo. Ela esteve ali velando-o até que o velho Davi desse seu último suspiro em vida, e se encontraram finalmente para se amarem eternamente.